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No entanto a relação de se criar não está apenas entre a intimidade do seu criador e sua obra, está também entre quem a compartilha. O escritor é como um cirurgião cardíaco que é o único capaz de ver o coração das pessoas, tocá-lo, porém nós não salvamos ninguém. Nosso trabalho é árduo tal o de um escultor ou pintor que criam com as mãos, pintamos centenas de palavras e a nossa tela é a mente, a imaginação alheia. Descrevemos cenas e personagens que se formam na cabeça das pessoas e como uma apresentação teatral que nunca é igual a outra, cada pessoa cria uma versão diferente dos nossos textos. As palavras literalmente tocam os outros. Nós ajudamos a esculpir a alma das pessoas.
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Escrever é parir, dar vida, mesmo que seja para trazer a morte, e ler é uma experiência sensorial e emotiva. É relembrar um passado inexistente, se comunicar com o silêncio, conversar com nós mesmos, nos ligar ao desconhecido mistério que nos cerca. É místico e terrívelmente mundano ao mesmo tempo. Amamos e odiamos aqueles que vivem aquelas vidas e os invejamos e adoramos. Muitos escritores não são onipotentes e sim viciados que dependem de seu mundo e como os leitores sofrem ou gozam com as suas histórias. Ser escritor é ser mentiroso, daqueles que tornam a verdade mais interessante.
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Para alguns a criação é rápida, para outros demorada, mas nunca é fácil. Eu tenho que ter um certo clima que me deixe com o espírito para escrever o que quero, para que eu consiga escolher as emoções que quero usar. Para outros o silêncio ajuda a ouvir melhor as vozes que ecoam em suas cabeças. Não há regras, não há receitas ou manuais. Só há a inutilidade da escrita. Não podemos dizer que escrevemos para ajudar as pessoas, isso é absurdamente ultrajante e absurdo. Não existe como saber como vamos atingir os outros, escrever é sempre atirar no escuro. Porque não há como dizer o quanto vale um texto, ou o quanto ele vai ser importante para alguém.
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Não pesamos a vida ou a morte. A perda de alguém ou a alegria de um nascimento. Também não temos como fazer isso com a escrita. Ela respira e vive, chora e se alimenta de vocês, cresce e vive e se multiplica e morre dando sequência a novas criações. Não responde a ninguém, não dá satisfação, não é culpada nem inocente. É viva, apenas isso. Viva!
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Obrigado por lerem o que escrevo.







